IAB, Google e o combate à fraude programática: ads.txt, sellers.json, TAG e MRC
Como IAB Tech Lab, TAG, MRC e Google se uniram contra a fraude na mídia programática, e o que ads.txt, sellers.json e schain mudam na receita do publisher.

Nenhuma empresa sozinha consegue acabar com a fraude na publicidade digital. A mídia programática envolve anunciantes, agências, DSPs, SSPs, redes, publishers e ferramentas de verificação, todos trocando dados em frações de segundo. Por isso, a resposta mais eficaz contra a fraude veio da cooperação: padrões técnicos abertos, certificações, auditorias independentes e ações coordenadas contra grandes redes criminosas. Nesse esforço, dois nomes aparecem o tempo todo: o IAB e o Google.
Este é o segundo artigo da série sobre políticas do Google e combate à fraude programática. No primeiro artigo, explicamos o que o AdSense e o Ad Manager consideram tráfego inválido. Agora vamos entender como a indústria se organizou para enfrentar o problema e o que isso muda na rotina do publisher.
Por que a fraude programática é tão difícil de combater
Na compra direta, o anunciante sabe exatamente em qual site está comprando. Na programática, a impressão pode passar por vários intermediários antes de chegar ao comprador. Essa complexidade abriu espaço para três grandes tipos de fraude:
- Falsificação de domínio (domain spoofing): o fraudador vende inventário de um site desconhecido dizendo que é de um portal premium.
- Tráfego não humano: bots, data centers, proxies e dispositivos infectados geram impressões e cliques.
- Manipulação de experiência: cloaking, anúncios empilhados, pixels invisíveis, navegação enganosa e incentivos para cliques.
Casos como o Methbot, revelado em 2016, mostraram o tamanho do problema: a operação usava servidores em data centers para simular visitas humanas e falsificava milhares de domínios premium, faturando milhões de dólares por dia, segundo os pesquisadores que a descobriram. Em 2018, a operação conhecida como 3ve foi desmantelada em uma ação conjunta que envolveu Google, empresas de segurança e o FBI, resultando em acusações formais nos Estados Unidos. Esses casos aceleraram a adoção de padrões comuns.
IAB e IAB Tech Lab: os padrões da cadeia
O Interactive Advertising Bureau (IAB) reúne empresas de mídia, tecnologia e publicidade. O braço técnico, o IAB Tech Lab, desenvolve especificações abertas usadas por praticamente toda a programática. No Brasil, o IAB Brasil atua na educação do mercado e na adaptação dessas boas práticas à realidade local. Os padrões mais importantes para o combate à fraude são:
ads.txt e app-ads.txt
O ads.txt (Authorized Digital Sellers) é um arquivo de texto publicado na raiz do domínio que lista quem está autorizado a vender o inventário daquele site. Quando um comprador recebe uma oferta dizendo ser de um determinado site, ele pode verificar se o vendedor aparece no ads.txt. Se não aparecer, a impressão provavelmente é falsificada. O app-ads.txt aplica a mesma lógica a aplicativos. A versão 1.1 da especificação adicionou campos como OWNERDOMAIN e MANAGERDOMAIN, que deixam mais claro quem é o dono do inventário e quem o gerencia.
O Google trata o ads.txt como peça central: o AdSense alerta quando o arquivo está ausente ou incompleto, e o Ad Manager permite que compradores filtrem inventário não autorizado.
sellers.json
Se o ads.txt diz “quem pode vender meu inventário”, o sellers.json diz “quem são os vendedores que eu represento”. SSPs e redes publicam esse arquivo listando os publishers e intermediários com quem trabalham, indicando se cada um é dono do inventário (PUBLISHER) ou intermediário (INTERMEDIARY). O comprador consegue cruzar as informações e identificar contas suspeitas.
SupplyChain Object (schain)
O SupplyChain Object registra, dentro de cada solicitação de lance, todos os elos pelos quais aquela impressão passou. Juntos, ads.txt, sellers.json e schain criam uma trilha auditável do publisher até o comprador. Uma impressão com cadeia incompleta ou inconsistente perde valor e tende a ser rejeitada.
Outras iniciativas
O IAB Tech Lab também mantém, em parceria com o ABC, a IAB/ABC International Spiders & Bots List, referência usada por plataformas para filtrar robôs declarados, além de trabalhar em especificações como o ads.cert, voltado à autenticação criptográfica de solicitações.
TAG: certificação contra fraude
O Trustworthy Accountability Group (TAG) foi criado em 2014 pela ANA, pelos 4A’s e pelo IAB para combater atividades criminosas na publicidade digital. Seu programa mais conhecido é o selo Certified Against Fraud, concedido a empresas que adotam um conjunto de controles: filtragem de tráfego inválido conforme padrões do MRC, uso de ads.txt, listas de data centers, nomeação de um responsável por compliance, entre outros.
O TAG também publica estudos sobre fraude em canais certificados e mantém registros e listas que ajudam a indústria a identificar participantes legítimos. Para um publisher ou uma rede, trabalhar com parceiros certificados reduz o risco de comprar ou vender tráfego contaminado.
MRC: como medir e filtrar tráfego inválido
O Media Rating Council (MRC) é o órgão que audita e credencia medições de mídia nos Estados Unidos. Suas diretrizes de detecção e filtragem de tráfego inválido, publicadas em 2015 e atualizadas depois, criaram a divisão usada até hoje:
| Categoria | Definição | Como é detectada |
|---|---|---|
| GIVT | Tráfego inválido geral | Listas de bots conhecidos, IPs de data center, parâmetros técnicos |
| SIVT | Tráfego inválido sofisticado | Análise comportamental, modelos estatísticos, investigação humana |
A distinção é importante porque mostra que filtrar bots declarados é só o começo. O verdadeiro desafio está no SIVT: bots que imitam humanos, proxies residenciais, dispositivos sequestrados, cloaking e manipulação de atribuição.
Google: tecnologia, políticas e ação contra fraudadores
O Google atua em várias frentes ao mesmo tempo:
- Políticas: as regras do AdSense, do Ad Manager e as Políticas para Publishers definem o que é proibido e as consequências.
- Detecção: equipes de qualidade de tráfego combinam filtros automáticos, aprendizado de máquina e revisão humana. Detalhamos isso em Como a IA ajuda o Google a prevenir fraudes na mídia programática.
- Padrões: o Google adota ads.txt, sellers.json e schain em suas plataformas e mantém credenciamentos de medição junto ao MRC.
- Transparência: o site Google Ad Traffic Quality reúne informações sobre como a empresa trata tráfego inválido e as investigações que realiza.
- Ação legal e cooperação: além de participar da operação contra o 3ve, o Google moveu ações judiciais contra operadores de redes de fraude, como no caso de dispositivos infectados de fábrica conhecidos como BADBOX 2.0, em 2025.
Para o publisher, a mensagem é clara: as plataformas do Google conversam com o resto da indústria. Um inventário mal declarado, uma fonte de tráfego duvidosa ou uma página com comportamento enganoso tende a ser detectado por mais de um sistema.
O que isso muda para o publisher
Os padrões da indústria parecem coisa de grandes empresas, mas afetam diretamente a receita de qualquer site:
- Sem ads.txt correto, você perde demanda. Muitos compradores simplesmente não dão lance em inventário não autorizado.
- Revendas não declaradas viram suspeita. Se você trabalha com várias redes, cada uma precisa estar listada corretamente e o seu ID deve aparecer no sellers.json delas.
- Parceiros importam. Trabalhar com redes e parceiros certificados, como os que operam via MCM do Google, traz exigências de qualidade, mas também acesso a melhor demanda.
- Tráfego comprado é auditado indiretamente. Mesmo que você confie na fonte, o verificador do anunciante pode classificar aquelas visitas como inválidas e a DSP pode bloquear seu domínio.
- Dados precisam bater. Diferenças grandes entre sessões do GA4, solicitações de anúncio e impressões pagas são um sinal que vale investigar.
Checklist rápido de conformidade com os padrões
- Publique o ads.txt na raiz do domínio e revise sempre que trocar de parceiro.
- Remova linhas de vendedores com quem você não trabalha mais.
- Confira se o seu ID de publisher aparece no sellers.json do Google e dos parceiros.
- Evite cadeias longas de revenda sem necessidade.
- Prefira parceiros com certificação TAG ou processos equivalentes de filtragem.
- Documente as fontes de tráfego pago e acompanhe a qualidade de cada uma.
- Mantenha o site seguro para que ninguém injete scripts ou redirecionamentos sem você saber.
A fraude evolui, e os padrões também
Cada avanço da indústria provoca uma adaptação dos fraudadores. Quando o ads.txt reduziu a falsificação de domínio, a fraude migrou para técnicas que usam domínios reais: sites montados para receber tráfego de bots, páginas com cloaking, arbitragem com tráfego incentivado e dispositivos sequestrados. É por isso que a série continua com os principais tipos de fraude que o publisher precisa conhecer e evitar. O próximo artigo trata do cloaking, técnica que mostra um conteúdo para os sistemas de revisão e outro para o usuário.
Perguntas frequentes
Ter ads.txt garante que meu site está livre de fraude?
Não. O ads.txt resolve um problema específico: impede que terceiros vendam inventário falsamente em nome do seu domínio. Ele não impede que o seu próprio site receba bots, tráfego incentivado ou que alguém aplique cloaking em páginas suas. É uma camada de proteção, não a proteção inteira.
O publisher pequeno precisa se preocupar com TAG e MRC?
Diretamente, raramente. Mas os parceiros que compram e vendem o seu inventário seguem esses padrões. Na prática, os filtros certificados pelo MRC e os controles exigidos pelo TAG é que decidem se as suas impressões serão pagas ou descontadas como tráfego inválido.
Por que o Google desconta receita mesmo quando eu não fiz nada errado?
Porque a política protege o anunciante, que não deve pagar por interações não genuínas, independentemente de quem as causou. Por isso é tão importante monitorar as fontes de tráfego e agir rápido quando algo foge do padrão: o publisher é responsável pelo tráfego que leva aos anúncios.
Conclusão
O combate à fraude programática é uma construção coletiva. O IAB Tech Lab cria os padrões, o TAG certifica quem segue boas práticas, o MRC define como medir e filtrar tráfego inválido e o Google aplica tudo isso em escala, com tecnologia, políticas e ações contra fraudadores. Para o publisher, aderir a esses padrões não é apenas obrigação: é o que garante acesso à melhor demanda e preços mais altos. Um inventário transparente vale mais.
Referências
- IAB Tech Lab: ads.txt
- IAB Tech Lab: sellers.json
- IAB Tech Lab
- Trustworthy Accountability Group (TAG)
- Media Rating Council (MRC)
- Google: Qualidade do tráfego de anúncios
- Google AdSense: Políticas do programa
- IAB Brasil
Série: políticas do Google e combate à fraude programática
- Políticas do AdSense e do Ad Manager contra tráfego inválido
- IAB, Google e o combate à fraude programática (você está aqui)
- Cloaking: quando a página mostra uma coisa e entrega outra (publicação em 13/10)
- Proxy e bots de navegação: o tráfego que não é humano (publicação em 14/10)
- Pay to surf e pay to click: o tráfego pago para clicar (publicação em 15/10)
- Navegação enganosa e promessa falsa (publicação em 16/10)
- Checklist antifraude para publishers (publicação em 17/10)


